Há uma pergunta que raramente se faz nas conferências sobre o futuro dos media: para que serve o jornalismo? A resposta habitual é que serve para informar o público. Mas informar sobre o quê, com que profundidade, com que propósito? Estas perguntas importam porque a resposta que uma redação dá a elas determina o tipo de jornalismo que produz. E o jornalismo que a maioria das redações portuguesas está a produzir hoje não é, com raras exceções, o jornalismo que o país precisa.
A tirania do imediato
O modelo económico dominante dos media digitais recompensa a velocidade e o volume, não a profundidade nem a precisão. Uma notícia publicada primeiro gera mais tráfego do que uma notícia publicada com rigor. Um título que provoca cliques vale mais do que um título que informa. Neste ambiente, o jornalismo investigativo — que exige semanas ou meses de trabalho para uma única peça — é um luxo que a maioria das redações diz não poder pagar. O resultado é um ecossistema mediático que produz muito ruído e pouca luz.
Em Portugal, este problema é agravado por uma concentração de propriedade que reduz a diversidade de vozes e por uma dependência crescente de fontes institucionais que filtram a realidade antes de a comunicar. Os comunicados de imprensa tornaram-se a matéria-prima de uma parte significativa da produção jornalística. A consequência é um jornalismo que raramente surpreende, raramente incomoda e raramente serve o interesse público no único sentido que importa: o de dar aos cidadãos a informação de que precisam para tomar decisões esclarecidas sobre a sua vida e o seu país.
O que pode mudar
A solução não é simples, mas os seus contornos são conhecidos. O jornalismo de interesse público precisa de modelos de financiamento que o desvinculem da corrida ao clique: subscrições, fundações, cooperativas de leitores. Precisa de redações dispostas a publicar menos e a publicar melhor. E precisa, acima de tudo, de jornalistas que se recusem a aceitar que o que é economicamente conveniente é o mesmo que é jornalisticamente correto. Essa recusa é o primeiro ato de qualquer jornalismo que valha a pena fazer.