Em 2017, o governo português encomendou um estudo sobre a crise da habitação em Lisboa. O estudo foi entregue. Em 2019, foi criada uma comissão parlamentar para debater as suas conclusões. Em 2021, a comissão publicou um relatório. Em 2023, o tema voltou ao debate público com urgência renovada. Em 2026, os preços do arrendamento em Lisboa triplicaram face a 2017. A maquinaria do debate funcionou na perfeição. O problema agravou-se em conformidade.
O debate como alibi
Existe em Portugal uma classe política que aprendeu a dominar a arte de parecer agir sem agir. A ferramenta principal é o debate institucionalizado: a audição no parlamento, a mesa redonda na fundação, o colóquio universitário. Estas instâncias cumprem uma função legítima quando precedem decisões. Tornam-se problemáticas quando as substituem. E em Portugal, com uma frequência que não é coincidência, substituem-nas.
O mecanismo é simples: quando um problema exige uma decisão politicamente custosa, convoca-se um debate. O debate gera visibilidade sem responsabilidade. Os participantes são ouvidos, as posições são registadas, o relatório é publicado. E a decisão que ninguém quer tomar permanece por tomar, protegida pela ilusão de que o processo democrático está a funcionar.
O custo do adiamento
Os problemas que Portugal não decide não desaparecem. Acumulam-se. A crise da habitação, o colapso das urgências hospitalares, a degradação do sistema de ensino, a emigração dos jovens qualificados: em cada um destes domínios, a inação tem um custo mensurável que é suportado por pessoas concretas enquanto o debate prossegue. A questão não é se devemos debater. É se nos permitimos usar o debate como desculpa para não decidir.